A Pele Que Habito
Há muita cor no cinema de Almodóvar. São cores fortes, marcantes e muitas vezes exageradas assim como seus personagens. Essa é a pele dos seus filmes. Neste mais recente há predominância do vermelho (aliás, eu não via tanto vermelho assim desde “Gritos e Sussurros”, de Bergman). São vestidos, cadeiras, cinzeiros, lençóis e também sangue, pois embora não abandone as cores vivas, agora Almodóvar está sombrio. Quando assisti “Fale com ela” passei a achar o cineasta espanhol um gênio, mas com o passar do tempo e de alguns filmes não tão bons, passei a questionar essa genialidade toda. Fiquei até com preguiça de ver o anterior, “Abraços Partidos”. Mas eis que surge esse “A pele que habito” para acabar com qualquer questionamento: sim, ele é um grande cineasta. Nesta macabra e ao mesmo tempo sensível história de um cirurgião com jeitão de Frankenstein, Almodóvar não só discute as questões sobre ambiguidade sexual que lhe são tão caras, como também faz uma análise interessantíssima sobre nossa exterioridade. Sobre como nossa forma física pode aparentemente determinar quem somos, mas não consegue esconder nossos segredos mais podres, aquilo que temos de mais enrustido. Almodóvar nos mostra que no fundo todos
A Árvore da Vida
Falaram tão bem e tão mal desse filme que até fiquei com receio de vê-lo. Quem odiou disse que parecia um documentário do Discovery Channel. Quem falou bem, tentou explicar por que gostou, mas explicou de uma maneira tão acadêmica que fez parecer que era necessário fumar quilos de maconha ou consumir muitos cogumelos alucinógenos para entender a viagem do cineasta Terrence Malick. A história do pai autoritário que marca a vida dos filhos (e deixa cicatrizes profundas) nem é tão importante (tanto não importa que o Sean Penn está ali com cara de bobo, completamente sem função, menos até que o tal dinossauro, mas não chega a estragar o filme), a beleza de “A árvore da vida” está na sensível sequência de imagens, silêncios e sons, que enquadram perfeitamente o sofrimento/amor daquela família. É como se fosse possível sentir a textura daquelas cortinas esvoaçantes que avisam que as janelas estão abertas. E é da janela que nós, muitas vezes, apenas observamos o mundo acontecer. Diria que é um filme para se sentir e não racionalizar, mas acho que isso soaria meio bizarro (ou gay). Obs: tomei três cervejas enquanto assistia ao filme, talvez isso tenha ajudado a construir uma visão subjetiva (em que o enredo até faz sentido, com dinossauro e tudo) da obra. Nota: @@@@
Amor a toda prova
Implico com comédias românticas, pois depois que inventaram a fórmula “Casal improvável se conhece + no começo se odeiam, depois de apaixonam + ficam juntos + algo dá errado e eles se separam + resolvem o problema + aprendem uma lição + vivem felizes para sempre”, parece que os roteiristas se limitaram a apenas repetir essa sequência narrativa exaustivamente. Vez ou outra surge um “500 dias com ela” da vida, para salvar a pátria, mas é raro.
Recentemente assisti o delicioso “Amizade Colorida” que também foge da tal fórmula e diverte (e muito) sem subestimar a inteligência do espectador. Mas é “A amor a toda prova” que me fez rever o meu preconceito contra comédias românticas. Assisti meio desarmado, não li nada a respeito, pois nem sabia direito que esse filme existia e isso só contribuiu para que a experiência fosse ainda melhor.
Não sei ao certo se dá para classificá-lo como comédia romântica, pois em meio às gargalhadas podem surgir muitas lágrimas. O elenco todo é espetacular, estão lá: Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Marisa Tomei e Kevin Bacon. O filme conta a história de um casamento desgastado que desaba de vez após a revelação de que houve uma traição. A partir daí o marido (Carrell, sempre brilhante) tentará se reconstruir como homem e para isso terá a ajuda do garanhão Jacob (Gosling) que frequenta o mesmo bar que ele e já está de saco cheio de vê-lo reclamar da vida. Paralelamente temos a história do filho mais novo, que se vê apaixonado pela babá adolescente, a qual está apaixonada pelo pai do garoto.
Lendo este breve resumo a sensação que temos é de que já vimos essa história e que o filme não passa de uma repetição de clichês. Mas a solução encontrada pelos roteiristas para desenvolver estes arcos dramáticos é de uma sensibilidade impressionante, pois consegue mesclar cenas absurdas e engraçadas, com outras sensíveis e dramáticas. Isso tudo sem o uso de narradores ou muita verborragia. A história vai se construindo com vários momentos de silêncio, de coisas não-ditas, que fazem com o espectador preencha as lacunas e ajude a construir a história dos personagens.
O filme não só escapa dos clichês como faz piadas com eles. Num certo momento (aviso: talvez isso seja um pequeno spoiler), após a hilária cena do tanquinho, Jacob oferece bebida para a garota e então eu logo pensei “Pronto, ele vai fazê-la dormir, não transará com ela por respeito e eles se apaixonarão”. Foi só eu pensar isso e a personagem disse “ok, já conheço isso, você vai me fazer dormir, não transará comigo e...”. Eu quase rolei de rir por causa disso.
“Amor a toda prova” está muito além das comédias românticas. É um belo filme (um dos mais belos que assisti nos últimos anos) sobre o amor, sobre o valor da família e dos amigos. E embora tudo isso possa parecer muito clichê, é muito bom quando um filme consegue nos fazer enxergar o óbvio de maneira tão bonita.
Avaliação: @@@@
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h17
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13/10/2011
Sobre morrer aos poucos
Quando você está viajando, encosta a cabeça na janela do ônibus e vê a luz do sol atravessando as folhas das árvores ou a poluição da cidade; quando alguém próximo a você morre e o céu não está nem cinza; quando você está no banho depois de uma quinta-feira de muito trabalho encosta a cabeça no azulejo e sente vontade chorar sem saber direito o porquê; quando você caminha pela rua num fim de tarde qualquer e admira a capacidade que as pessoas têm de sentir e demonstrar felicidade; quando você acorda para ir trabalhar e sente que preferia estar morto...
Há momentos como estes e tantos outros em que você para e se questiona: como cheguei até aqui? Quais foram as escolhas que fiz que determinaram quem eu sou hoje? “Daytripper” a premiada HQ dos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon, levanta esse tipo de questionamento.
Memórias, cheiros, sonhos e sabores são despertados a cada momento marcante da vida do personagem Brás de Oliva Domingos, um escritor de obituários, que assim como o Brás Cubas de Machado, tenta retomar o passado para entender quem se tornou no presente. Ao fazer um apanhado de sua vida, ele conta a de todos nós, daí “Daytripper” ser uma história universal, tão merecedora do prêmio Eisner (talvez o mais importante dos quadrinhos) conquistado esse ano.
O primeiro amor, o nascimento do filho, o lançamento de um livro, a descoberta da amizade verdadeira, qual desses momentos são definitivos em sua vida? Talvez a resposta seja: todos eles.
Ao contar a história de forma não-linear, Bá e Moon criaram uma estrutura narrativa muito interessante que, entre idas e vindas temporais, remete à fragmentação da memória, do passado, estabelecendo uma espécie de quebra-cabeça cujas peças não estão completas, cabendo ao leitor construí-las com a sua imaginação (e também, quem sabe, com suas próprias lembranças).
Assim como num bom romance cujos parágrafos parecem ter sido polidos à exaustão para achar a palavra perfeita e a sintaxe mais adequada, nesta HQ percebemos um cuidado enorme com cada quadrinho, sempre cheios de detalhes que vão desde objetos de cena de uma determinada década até um assaltante com a camisa do Corinthians.
Esses detalhes estão também no texto, nas cartas, bilhetes e obituários que Brás deixa pelo caminho, mas a poesia de “Daytripper” está mesmo nos momentos de silêncio. Fazer com que o leitor se comova sem utilizar a palavra, apenas com o desenho, é o que faz com que as histórias em quadrinhos sejam tão diferentes da literatura (o exemplo máximo disso, para mim, é “Jimmy Corrigan – O menino mais esperto do mundo” obra-prima de Chris Ware).
Há um trecho em especial que me tocou, ele é aparentemente simples e está na página 127. São cinco quadrinhos mostrando o céu, com um enquadramento que faz parecer o ponto de vista de quem está deitado no banco de trás de um carro, vendo apenas trechos da paisagem que passa. O personagem está voltando de um fim de semana na casa da vó, numa região rural e segue para a cidade. No primeiro quadro vemos apenas alguns galhos de árvore, depois o céu azul, com poucas nuvens e posteriormente os fios de luz, placas e os prédios. Vendo esse deslocamento, de um lugar calmo para outro bem mais tumultuado (o que se assemelha ao próprio ato de crescer), é difícil não se lembrar da infância e das viagens daquela época. É como se os autores olhassem para o passado com carinho e não com cinismo ou com mágoa.
Ao acompanharmos os passos tétricos de Brás, vemos nossa própria história sendo contada a cada quadrinho. E embora exista muita beleza nas lembranças, nem sempre elas são algo de que nos orgulhamos, afinal todos nós levamos uma vida cheia de erros e acertos (e muitas vezes com uma inclinação para o fracasso). Quando um livro, uma música, um filme ou uma história em quadrinhos dialoga tão bem conosco, quando fala ao nosso coração, fazendo com que nos imaginemos parte daquilo a ponto de nos emocionarmos, é porque estamos diante de uma grande obra.
“Daytripper” é uma história sobre a vida e por isso fala sobre a morte. Sobre como parte de nós morre ao longo de nossos dias e fica pelo caminho para que nos tornemos quem nós somos.
Parece que ninguém ouviu o barulho vindo da casa azul na esquina. Se alguém ouviu pelo menos não se manifestou, pois as ruas permaneceram vazias como sempre. O que não era muito incomum, já que o povo daquela cidade não demonstrava muito gosto de viver ou mesmo de ver o lado de fora. Lá, as pessoas apenas sumiam dentro de suas casas.
E o barulho? Passaria por trovão, se trovão coubesse na sala de estar, mas poderia muito bem ser um grito ou quem sabe uma gargalhada, se desespero coubesse apenas em dois lábios.
Por dentro, a casa não era azul e uma nuvem cinza lambia o teto e as paredes e o resto, deixando os móveis todos nublados. Se houvesse pessoas nas ruas dessa cidade e se essas pessoas ouvissem o barulho que veio dali e se aproximassem e olhassem pelo vidro, elas veriam, por detrás do acinzentado ar, duas pessoas ali no chão.
Forçassem a vista ainda mais, perceberiam que há um filho e que havia um pai.
O menino juntava a sua mão e a do homem, palmas abertas, para medir os dedos. A comparação parecia injusta, o menino percebia-se frágil diante do gigante. O filho ainda teria que cometer muitos erros na vida para que ficassem do mesmo tamanho que o pai.
A nuvem de pólvora aos poucos desapareceu. Se houvesse alguém para testemunhar aquela cena, talvez fosse possível distinguir se o menino chorava ou gargalhava quando apanhou a arma ainda quente, virou contra si e sumiu.
Estávamos ansiosos pelo show do Metallica, então fui surpreendido ao perceber que melhor momento da noite começou antes deles subirem ao palco. Lá estava o Slipknot, banda da qual não sou fã, mas que eu já conhecia por causa das tais máscaras macabras e de algumas músicas legais. O clima de teatro (não o mágico), com cada integrante da banda compondo uma espécie de personagem insano funciona perfeitamente ao vivo. Os aspectos técnicos do palco ajudam (não é todo dia que se vê um baterista tocando quase de ponta cabeça), mas é a atitude da banda que faz a diferença. Num festival, todo mundo espera que algum artista faça algo fora do padrão. Por isso gostei quando vi, logo ali na minha frente, o DJ louco subindo na cabine de som e pulando na galera ou quando o cara fez 100 mil pessoas se abaixarem (quem não se abaixou levou garrafada na nuca) e depois pularem juntos. Foi realmente sensacional. Como o próprio vocalista falou, muitos dos ali presentes se tornarão um câncer da banda e a espalharão por aí. Depois de um show como esse, eles merecem isso.
Pirotecnia e o bom e velho arroz com feijão
Já era madrugada, eu não sentia mais as minhas pernas e estava com uma dor infernal nas costas quando o Metallica começou seu show. O palco não tinha nada demais e achei que o início foi um pouco morno, mas do meio em diante eles mostraram por que são uma das maiores bandas de metal do mundo. Muita gente veio de longe (nós inclusive) só para vê-los e os caras não decepcionaram. Tocaram as músicas mais conhecidas, com todo mundo cantando junto. Fizeram um show pirotécnico (se eu que estava a uma distância razoável senti o calor daquelas labaredas, imagino que quem estava perto tenha queimado as sobrancelhas) e interagiram várias vezes com o público. Num gesto muito bacana, ao final do show a banda ainda desceu para dar atenção ao pessoal corajoso que ficou ali esmagado na grade.
De volta pra casa, sem as pernas, mas com a alma lavada
Saímos da cidade do rock nos arrastando feito zumbis às 4h e fomos direto para o aeroporto. Como nosso voo só sairia às 10h tivemos que imitar a multidão de metaleiros que estava por lá: deitamos no corredor, fizemos as mochilas de travesseiros e dormimos ali mesmo esparramados no chão. Para completar nossa desventura, quando acordamos, um pessoal da Globo estava filmando a galera dormindo no chão. Provavelmente viramos estrelas bizarras de algum jornal da hora do almoço.
No voo de volta, olhando para o Cristo Redentor ficando cada vez mais distante, sentindo o corpo completamente moído, lembrei disso tudo que acabo de contar e pensei “Foi muito foda!”. Uma noite como essa a gente guarda para sempre.
Escrito por Eder - eder_ceima@yahoo.com.br às 12h42
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Estive no Rock in Rio e lembrei-me de você - Parte I
Ideia de girico
Ir a um festival de rock é uma espécie de aventura, pois a possibilidade de que algo dê errado é bem grande. Conosco as coisas começaram a dar errado antes mesmo embarcarmos para o Rio, pois com as obras para a Copa do Mundo, o aeroporto de Curitiba (que não fica em Curitiba, mas em São José dos Pinhais) estaria fechado no domingo pela manhã, exatamente o horário que já havíamos nos programado para viajar. Não bastasse isso, não havia mais hotéis disponíveis na cidade mais ou menos maravilhosa. Resultado: tivemos que ir para São Paulo no sábado e de lá seguir para o show no dia seguinte.
O lado bom disso é que chagamos um pouco antes e tivemos a oportunidade de conhecer um pouco do Rio de Janeiro, com direito a andar pelo calçadão de Copacabana e ser confundido com turista estrangeiro, pois meu amigo Everton tem a maior cara de gringo e nós estávamos todos de calça jeans e camiseta preta num calor daqueles. Gostei da cidade, a paisagem é linda, os motoristas são péssimos assim como em Curitiba e as pessoas recebem muito bem os turistas.
Do aeroporto pegamos um ônibus que nos levou direto para a Cidade do Rock. No meio do caminho, vimos as favelas, o lado não tão maravilhoso da cidade maravilhosa. Depois recebo notícias pelo twitter de que várias pessoas haviam sido assaltadas no dia anterior e em todo o trajeto várias pessoas nas ruas com faixas dizendo “Um mundo melhor? Só com Jesus”. Lá fomos nós, com medo de perder a carteira e a alma.
Cadê o fim da fila?
Já na entrada pudemos ter uma ideia da grandiosidade do evento, pois milhares de pessoas formavam uma fila enorme, nós não conseguíamos nem enxergar o fim. Os roqueiros caminhavam sem pressa e sem tumulto, desviando de ambulantes que vendiam camisetas falsificadas, capas de chuva, cerveja, refrigerante e até pinga com mel. Como sabiam que as coisas lá dentro seriam muito caras, muita gente procurou se embebedar antes de entrar. O que fez com que os banheiros químicos disponíveis ao longo da fila se transformassem rapidamente na porta dos desesperados, uma espécie de mini-visão do inverno. Um cara completamente drogado e sem camisa tentando passar por debaixo da grade, quase ficando com a cabeça enroscada e depois dizendo “É isso aí cês tão filmando né? Aqui é tudo ao vivo, aqui é live” foi um dos pontos altos.
Finalmente conseguimos entrar, mas espera aí, é um show do Bob Marley?
Quando passamos pelos portões vimos muitos roqueiros se abraçando e rolando pela grama (que era sintética!), estávamos de frente para o gigantesco palco principal. Então a ficha caiu. Estávamos num dos maiores eventos de rock do mundo. Sim, de rock, pois as atrações do domingo não tinham nada de pop.
Fomos direto para o show do Matanza que estava rolando no segundo palco. B. Negão também estava lá e eles faziam galera pular e cantar todas as músicas em uníssono. Já de cara me senti num show de reggae, a fumaceira era tanta que provavelmente as pessoas só estavam vendo duendes cantando lá em cima. Como a revista na entrada era ridícula, as pessoas entraram com tudo o que era proibido, vi muita gente com drogas, garrafas de uísque e de Coca-Cola (que é uma droga ainda mais pesada). Como as garrafas eram proibidas, vimos alguns caras que arrumaram uma solução perigosa: viraram um litro de vodca num saco plástico.
Da desorganização
O pior momento foi ter que esperar mais de uma hora na fila para comprar bebida. Havia vários pontos de venda ao longo da Cidade do Rock (a qual nem conseguimos conhecer por completo, de tão enorme), mas todos estavam completamente lotados, o que gerou indignação de muita gente.
Perdemos tanto tempo em filas que acabamos vendo apenas trechos do show do Angra. Mas depois começou o show do Sepultura com um grupo de percussão espancando vários tambores de óleo e a galera enlouqueceu. Uma pena que tenha sido tão curto. Todos perceberam a injustiça cometida pela organização do evento. Enquanto todo mundo se amontoava para ver Andreas Kisser e Cia num palquinho, no palco principal tocava a banda Glória a qual, pelo que soube só depois, foi até vaiada.
Vivendo perigosamente I: ir ao banheiro num festival de rock
A primeira vez que fomos ao banheiro ficamos contentes por não ser um daqueles banheiros químicos vomitados lá da fila, era uma espécie de mega-mijador com espaço para muita gente. Mas não gente suficiente. Quando tentamos ir novamente lá pelo meio da noite ouvi um sujeito dizer já na entrada “Vichi véi, isso aqui num é poça d’água não”. O local estava completamente encharcado de urina, já nem dava para ver a grama sintética direito, pois parece que ouve um vazamento, mas se não bastasse isso alguém ainda gritou “A parede tá legalizada!” e então as pessoas passaram a mijar em qualquer lugar, compondo um verdadeiro show de horrores.
Vivendo perigosamente II: buscar a cerveja
Quando saímos do show do Sepultura, uma obra banda que eu nem sei o nome tocou no palco principal e também foi vaiada, tentou animar a galera com um couver do Iron Maiden, mas não deu muito certo. Afinal todos estavam ali para ver as três bandas que viriam a seguir.
Neste momento já estávamos lá no meio da multidão, com dores nas pernas e tentando achar algum lugar para sentar. Saí de lá para pegar cerveja para mim e para meu amigo e me arrependi, pois quase não consegui voltar. No meio do caminho o show do Motorhead começou e lá estava eu, tentando passar por entre 100 mil pessoas com dois copos cheios na mão. Lógico que não consegui, tropecei num bêbado caído no chão e virei um dos copos nas costas de um cara com camisa do Lemmy, vocalista da banda que estava tocando. Quando achei que levaria um soco na cara, o sujeito se virou e disse “Cara, não esquenta, acabei de fazer isso também”.
Metaleiros paz e amor
Quando você vê aquela horda de metaleiros, todos de preto e com cara de bandido, você imagina que todo mundo é muito violento. Isso é um engano. Ficamos umas 12 horas lá dentro, vi muita gente bêbada, drogada ou vomitando, como em qualquer outro show, mas não vi ninguém se agredindo. Pelo contrário, as pessoas eram educadas e gentis umas com as outras, pois estava muito claro que todos estavam ali para se divertir e ninguém queria confusão. Aquelas rodas que se abrem na multidão não são brigas, como parecem quando vistas pela TV, aquele é o jeito que a galera curte rock, pode parecer grotesco, mas é tudo na paz. Tanto que, pelo que soube, o domingo foi o dia que teve menos ocorrências policiais.
Lost
Pois bem, lá estava eu, com uma cerveja a menos, perdido no meio da multidão e o Motorhead com seu vocalista cozidão tocando seus sucessos. Nesse momento você já fica pensando em como vai voltar sozinho, pois não adianta marcar lugar para se encontrar uma vez que não se consegue nem andar direito. Já tinha até desistido de procurar quando sem querer acabei encontrando meus amigos o que, confesso, foi um grande alívio.
O Marty McFly Brasileiro
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Mesmo que a história seja bobinha e não passe de uma colagem de blockbusters americanos, “O Homem do Futuro” tem o mérito de fugir um pouco do padrão popular dos filmes nacionais nos últimos anos, a saber: filme-de-favela e comédia-de-mau-gosto-semi-pornográfica. Lógico que ótimos filmes foram produzidas também, mas não podemos negar a avalanche de porcarias que andam batendo recorde de bilheterias por aí.
O filme de Cláudio Torres não parece querer ser levado muito a sério. O tom é sempre de brincadeira, de humor leve, meio nostálgico e não-agressivo. Para isso ele conta com um roteiro que funciona bem, uma ótima produção e com bons efeitos especiais (a máquina do tempo ficou muito bacana).
Com referências que vão de “Carrie, A Estranha”, passando por “Efeito Borboleta” e chegando a “De volta para o futuro”, acompanhamos o personagem de Wagner Moura (ou os personagens, visto que em certo momento vemos três dele na tela) numa aventura que tem tudo para dar errado. Quem assiste ficção científica sabe muito bem que o passado não deve ser mudado. A idéia é: se algo está ruim tende a ficar ainda pior se você resolver mexer, mas infelizmente você só descobre isso depois de já ter feito a cagada e então o arrependimento se transforma numa lição de vida.
Wagner Moura dá aula de interpretação, construindo camadas bem diferentes - ora exagerado e inocente, ora mais contido e amargurado - conforme a idade do personagem. Enfim, o filme de Claudio Torres não revoluciona nada, nem traz grandes emoções, mas pelo menos diverte mantendo dignidade e o bom gosto.
Macaco mandou...
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A primeira lembrança que tenho do “Planeta dos Macacos” é a refilmagem do clássico dos anos 60 feita pelo aclamado cineasta Tim Burton, em 2001. Sendo assim, a lembrança não é das melhores, afinal sempre achei essa versão um lixo.
Então há alguns meses fiquei sabendo que os macaquinhos marxistas entrariam na moda do rebbot (essa jogada comercial de colocar diretores diferentes para contar as mesmas histórias, tudo desde o início, para recomeçar uma nova franquia milionária, como é o caso do Homem-Aranha). Pronto, pensei, é agora que a coisa vai pro buraco de vez.
E não é que eu estava redondamente enganado?
“Planeta dos Macacos – A Origem” consegue, de forma brilhante, aquilo que o Michael Bay nunca conseguiu com seus filmes pirotécnicos e acéfalos: divertir e fazer pensar. Lógico que este é apenas um blockbuster e não um Bergman, mas é interessante ver Hollywood se esforçando um pouco.
Do ponto de vista visual, o filme impressiona. Tenho certeza que esses são os efeitos mais convincentes que vi na telona nos últimos anos (para mim, superou até “O Curioso Caso de Benjamin Button”). Sem o complexo de pavão de um “Avatar” da vida, a computação gráfica, com aquela técnica de captura de movimentos como a do Smigol no Senhor dos Anéis, é empregada a favor da narrativa, pois tem o objetivo justamente de não parecer um efeito visual. Dessa forma, não só o movimento corporal dos animais é absurdamente real como também suas expressões faciais. E é aí que está uma das grandes virtudes deste filme: é através deste olhar “humano” deles que podemos perceber o seu sofrimento e compreender a sua revolta. Quando isso acontece, podemos até nos emocionar quando vemos o macaco desenhar uma janela em sua jaula na tentativa de trazer as lembranças de sua casa (o que até me fez lembrar “O Labirinto do Fauno”). Fosse um mero efeito visual, não nos convenceríamos disso.
A idéia do roteiro me pareceu bem engenhosa. Na tentativa de encontrar a cura para o mal de Alzheimer, potencializando as conexões neurais, os cientistas acabam criando uma substância que desenvolve as funções do cérebro de maneira assustadora. Ao testá-las em chimpanzés, a experiência sai de controle.
A evolução dos animais ocorre de maneira lenta, o que torna a história muito mais interessante. E o melhor de tudo é que o diretor consegue contar toda a organização e revolta dos macacos apenas visualmente, sem um narrador ou algum personagem nos contando o que está acontecendo. E a cena em que vemos um dos macacos brincando com uma réplica da Estátua da Liberdade, faz uma bela homenagem ao filme original.
Os atores de carne e osso não comprometem, mas também não acrescentam muita coisa. No fim das contas, James Franco pode até decepar o próprio braço que, para mim, continuará sendo um ator meia boca. Então se os personagens dos macacos foram bem desenvolvidos, o mesmo não se pode dizer dos humanos, muitos deles reduzidos a meros estereótipos de malvadinhos que maltratam os animais.
Mas o que importa é ver a macacada se rebelando e detonando tudo o que vê pela frente, mas não de maneira desorganizada, afinal, eles possuem um bom cérebro e não é a toa que o líder se chama César. Aliás, demorarei a esquecer a cena da ponte, quando vemos os símios utilizando engenhosas táticas de guerra para complicar a vida dos humanos. Creio que a questão da inteligência aliada à violência como base para se obter o poder/domínio será mais bem desenvolvida nos próximos filmes, mas o que já foi apresentado até aqui realmente empolgou.
Nós, Os Náufragos
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amar é maré
mar é amor amargo
amor que vai
e não volta
só devolve solidão
de sal a sol
mar morto
com marca de saudade
nau
HISTÓRIAS MÍNIMAS
"Invento memórias ruins para que sua ausência não me cause tanto mal. Mas nestes tempos tristes, pensar em você é o que me salva"
"São tantos os prédios. Janelas emoldurando amores e desamores. Vez ou outra cai um suicida e espanta as pombas na calçada"
"A moça lê um livro bobinho, sorri de um jeito bonito, depois o devolve na estante e vai embora. Guardo o sorriso e o segredo"
"O pássaro equilibrista / no fio de alta tensão / procura trechos de céu / mas há somente cimento / desiste / vai bicar alimentos no chão"
"Pobre homem, parte com o coração partido: uma parte infeliz, outra também."
"O pai saiu para comprar cigarros e... voltou. Fumou até pegar câncer e dar trabalho para a família. Antes cumprisse o clichê e não tivesse voltado"
"Escutou o telefone tocar e imaginou uma conversa em que faziam as pazes e tudo ficava bem. Depois jogou o aparelho pela janela"
"Quando acordou, os galos ainda estavam preparando seus teares, a manhã ainda por amanhecer. Imaginou João Cabral de Melo Neto a rascunhá-la em versos."
"Vidro embaçado, o desenho do teu rosto aos poucos desaparece. Lá fora, a chuva não cessa. Os cacos no chão, mosaico do desespero"
*Textos publicados originalmente no www.twitter.com/ederalex
REALIDADE ABSURDA
Sempre que alguém comenta algo sobre o Kafka, uma palavra me vem à mente: pesadelo. Rolam discussões sobre o absurdo ou a realidade na obra dele, mas eu não consigo escapar da sensação de que quanto entro nessas narrativas, estou preso num terrível pesadelo. Sabe quando você tenta fugir, sabe-se lá do que, mas parece que está pisando em areia movediça?
Quando li “A Metamorfose” na adolescência, a primeira coisa que pensei foi “Mentiram pra mim, o Gregor Samsa não vira uma barata!” (foi mais ou menos naquela época do filme “Joe e as Baratas” então...). Quando me contavam a história eu imaginava uma barata como a de um filme B e achava tudo aquilo meio idiota, mas quando finalmente li o livro, minha imaginação criou um inseto muito mais nojento que uma barata e aquela narrativa, para mim, virou um grande conto de horror e de solidão, uma mistura que até então eu nunca tinha pensado. Imagine quantas vezes, trancando no quarto, um adolescente fica de mimimi dizendo que se sente abandonado / incompreendido / injustiçado pela família? Era a literatura misturando-se à realidade absurda. Lógico que a história é muito mais que isso, mas esse primeiro contato foi importante para que simpatizasse com aquele genial escritor orelhudo.
Em “Kafka Essencial”, lançada pela Companhia das Letras, no selo Penguin Companhia (aliás, fiquem atentos aos livros deste selo, são alguns clássicos que não circulavam pelas livrarias com esse tratamento editorial caprichado já há algum tempo), reúne vários textos bastante conhecidos do autor como “O Veredicto”, “Um artista da fome”, “Um fratricídio” e o já citado “A metamorfose”.
Dos que eu ainda não havia lido e que me fizeram voltar a pensar na atmosfera de pesadelo/realidade que envolve a literatura do Kafka, destaco dois que achei geniais: “Na Colônia Penal” que conta a história de uma máquina de tortura que escreve a sentença diretamente na pele do condenado, utilizando agulhas que vão rasgando sua carne lentamente. Diga se isso não é um pesadelo? É de deixar o Jigsaw, dos Jogos Mortais, com invejinha. Esse texto faz pensar e muito no “Vigiar e Punir” do Foucalt.
Outro conto/novela muito bom é “Um relatório para uma academia”, sobre um macaco que para escapar de sua jaula passa e imitar os seres humanos, não só os gestos, mas também a linguagem utilizada por eles. É praticamente uma voadora com os dois pés na cara da sociedade.
Todos os textos são antecedidos por comentários do tradutor Modesto Carone. O lado bom disso é que naqueles casos em que você lê, não entende, e fica fingindo que entendeu (desculpe te acusar de pedante assim, na frente dos outros), ele te dá uma mãozinha e apresenta uma reflexão que talvez não lhe tenha ocorrido. O lado ruim é que ele solta uns spóilers sobre as narrativas, eliminando as possíveis “surpresas”. O grande lance é você ler as histórias primeiro e só depois ler o texto do Carone.
Para quem já gosta de Kafka, essa é a oportunidade de ver reunido ótimos textos por um preço acessível (paguei 25 dinheiros no meu). Para quem não conhece é o momento de criar vergonha na cara e ler, pois esse é um dos grandes gênios da literatura.
Bons pesadelos.
O Menino e o Cavalo
fonte
*Embora eu tenha escrito o texto, foi minha mãe que me contou essa história que aconteceu há poucos dias bem perto de nossa casa. O crédito é dela, portanto.
Quando vi o menino, ele ainda não estava chorando. Estávamos saindo da churrascaria e a confusão de carros no estacionamento mais parecia um quebra-cabeça de algum jogo de RPG. Era domingo e um cavalo achou de empacar na saída dos carros bem na hora de maior movimento.
Na beira da rua, um homem, pouco sóbrio, andava de um lado para o outro com um chicote na mão. Resmungava e cuspia palavras desconexas. Não era tão velho, mas o estado deteriorado de suas roupas e o cansaço em seu rosto roubavam-lhe alguns anos. No outro canto, perto do cavalo e ao lado do carrinho cheio de lixo reciclável estava o menino. Enfiado em um pijama, angustiantemente sujo e que provavelmente pertenceu a um adulto, ele não parecia perturbado com o olhar reprovador dos motoristas que buzinavam e xingavam. Ele apenas parecia ausente, olhando em silêncio para o cavalo.
Sua expressão só mudou quando alguém disse “Vai ter que sacrificar, não tem jeito”. Em seu rosto se formou uma sombra de pesadelo e ele logo abraçou o pescoço do animal gritando “Não, não, não...”. Repetiu tantas vezes que a palavra aos poucos virou ruído e perdeu sentido, sumindo no palavrório do povo que aos poucos se aproximava e compunha o tumulto.
Havia algo de errado com a pata traseira do cavalo, que não conseguia se apoiar em pé e mal conseguia relinchar. Os motoristas desistiram de buzinar e berrar e abriram caminho passando por cima da calçada da churrascaria.
O homem zonzo de cachaça e de tristeza se sentou do outro lado da rua e começou a raspar o asfalto com uma pedra como quem tenta cavar um buraco. Quando nosso carro estava passando vi o cavalo ensanguentado, ele havia se enroscado num rolo de arame farpado. Só então me dei conta de que o menino havia parado de gritar, suas mãos estavam cortadas pelas tentativas de salvar o animal e as lágrimas formando riscos de barro em seu rosto imundo. Durante alguns segundos ele olhou diretamente para mim – nos olhos a imagem de uma vida que desmorona - o que me fez gelar. Parecia que queria pedir ajuda, mas não disse nada. Eu também não. Voltamos para casa em silêncio.
QUANDO O AMOR NÃO DURA PARA SEMPRE
Quando vi a tradução Rerbert Richards para o título de Blue Valentine, que aqui ficou como “Namorados para sempre”, pensei que era mais um caso esdrúxulo de apelo comercial ou falta de noção (se não me engano o filme estreou próximo ao dia dos namorados). E talvez até seja as duas coisas. Xinguei o pessoal das distribuidoras, mas depois me peguei fazendo algumas conexões possíveis e, no fim das contas, nem achei o título tão imbecil assim.
Não esperava nada desse filme e isso contribuiu para que eu acabasse gostando muito dele. Não só os atores estão ótimos - Michelle Williams mostra, mais uma vez (lembram-se dela em Brokeback Mountain?) que é uma das melhores atrizes dessa geração – como também a direção é muito boa. Ao optar por contar a história de maneira fragmentada, com idas e vindas temporais e sem letreiros óbvios do tipo “10 anos antes...”, o diretor Derek Cianfrance deu um ritmo ágil ao longa e ainda o tornou mais interessante, uma vez que só vamos descobrindo aos poucos como começou aquele relacionamento que agora está tão devastado. Ao encaixarmos as peças que faltam, passamos a entender um pouco daquela dor.
Não que essa estrutura narrativa seja muito original, vale lembrar que o cineasta francês, François Ozon, já fez isso e de maneira ainda mais extrema em “O amor em cinco tempos”, quando contou uma história totalmente ao contrário, começando com o casal se divorciando e terminando no momento em que eles se apaixonam.
Mas “Namorados para sempre” tem o mérito de ser simples. Fica claro que há apenas delicadeza na direção de fotografia e não arroubos artísticos, daqueles que fazem os filmes parecerem demasiadamente pretensiosos ou “poéticos” quando não o são. É como se a iluminação e o posicionamento da câmera tornassem mais clara a preocupação ou a ternura que um autor sente por seus personagens, apenas isso.
O filme é sobre um amor que ainda existe para uma das pessoas envolvidas, mas que perdeu seu espaço no coração do outro por causa da aridez do cotidiano e de um passado mal resolvido. E é por isso que talvez o título brasileiro faça sentido, pois a paixão que liga um casal de namorados às vezes é paradoxal: se por um lado nos iludimos achando que aquele sentimento é infinito, por outro, nos jogamos de cabeça nesse abismo, pois queremos aproveitá-lo em toda sua intensidade antes que acabe, “posto que é chama”, como bem nos alertou o poeta. Não raro, disfarçamos essa consciência de que o amor é finito tentando recobrar a falsa idéia de “eternos namorados”, como se o sentimento só fosse possível com a roupagem de seus dias primevos.
No fundo é como se a vida real seguisse por um caminho e o coração caminhasse em direção contrária, misturando o que é lembrança e o que é dor, para sempre.
Woody Allen é o meu cineasta favorito. Gosto tanto do trabalho do cara que mesmo que ele chegasse ao fundo do poço e dirigisse algo como “Transformers” (já imaginou os Autobots deprimidos citando tragédias shakespearianas entre uma explosão e outra?) ou uma propaganda da câmera Tecpix, ainda sim eu o acharia fod... fantástico.
Dito isso, não espere deste texto uma análise com algum tipo de razão ou embasamento teórico, pois além de escrever de forma passional, eu também não entendo bulhufas de técnicas cinematográficas. Só assisto, gosto ou não gosto e depois tento explicar minha opinião aqui no blog.
Vamos lá. Não bastasse todo esse clima de “já ganhou”, Woody Allen ainda me vem com uma história que fala sobre literatura, outra de minhas paixões (na escala de preferência, ela ocupa um lugar de destaque, logo depois da batata-frita com ketchup). Ver escritores que admiramos ganharem vida na telona é umas das coisas mais emocionantes que o filme proporciona, sem falar no prazer de tentar adivinhar quem é quem, como se estivéssemos folheando a revista Caras, mas só que uma edição especial para leitores com cérebro.
Contudo é aí mesmo que surge um certo problema. Há pessoas (ó almas impuras!) que não gostam dos filmes dele porque acham chato. Ok, sou de respeitar as diferenças então não vou generalizar, deve realmente haver vários motivos nobres para não gostar, como eu desconheço a maioria, comentarei apenas um deles: as pessoas que não gostam porque não entendem as piadas.
Isso acontece direto comigo, quando um inteligentão vem com uma sacadinha muito intelectual, dou uma risada meio sem graça, só para não me acharem muito burro, e depois fico com aquela cara de paisagem. No fundo sinto mais tédio do que vergonha. É normal, ninguém é obrigado a saber tudo e muito menos achar graça de tudo. Woody Allen é um cara bastante erudito, mas não é do tipo pedante ou arrogante que fica esfregando isso na sua cara, pelo contrário, ele faz até piada disso em “Meia Noite em Paris”, com o personagem mala que acha que sabe tudo sobre tudo.
Mas como não há tortas na cara, nem peidos, nem piadas com fezes humanas é necessário pensar um pouco para rir de alguma coisa neste filme e aí a coisa complica, pois muitos dos filmes americanos nos ensinaram que engraçado é apenas aquilo que é óbvio ou escatológico.
É preciso ligar alguns neurônios para se divertir com os filmes deste cineasta, mas não que você tenha que ter um doutorado em literatura. Neste último trabalho não é nem é necessário ter lido todos os livros dos escritores que aparecem em cena (eu, na abissal ignorância em que flano por essa vida, não li nem o “Paris é uma festa” do Hemingway e também nunca ouvi falar num bocado de gente que aparece em cena. Até pensei em fazer como uns e outros: ler outras críticas e copiar os nomes para meu texto parecer mais inteligente, mas deixa pra lá). É claro que você dará mais risada, por exemplo, se já tiver assistido ao genial (e esquisitíssimo) clássico “O Anjo Exterminar”, pois há uma piada hilária envolvendo o cineasta mexicano Luiz Buñel, mas você não precisa nem saber quem foi Salvador Dali para abrir um grande sorriso ao vê-lo falar sobre rinocerontes.
Ainda prefiro o Woody Allen pessimista (dos geniais ‘Crimes e Pecados’ e ‘A Rosa Púrpura do Cairo’, por exemplo), mas acho que dessa vez ele até conseguiu atingir um público maior com essa história de um escritor que volta ao passado todas as noites. E posso entender o motivo. Acho difícil que alguém que se interesse pelo menos um pouco por cultura em geral, não fique encantado com olhar apaixonado que ele direciona à arte e à cidade de Paris (aliás, os primeiros minutos do longa parecem um filminho institucional para alguma empresa de turismo, mas tudo bem).
O que realmente importa é que quando discute o fato de estarmos eternamente insatisfeitos e angustiados com a época em que vivemos, que somos ingênuos e românticos ao pensarmos que “antigamente é que era melhor”, Woody Allen fala, de maneira bem simples, ao coração de todo mundo e não apenas de quem já leu Scott Fitzgerald. Eu não li ainda, você já?
A vendedora de Avon
O homem é um ser social por natureza e por isso é uma pena que ele seja tão pouco sociável. Esse bug no sistema programado por Deus ou em constante evolução desenvolvido pelos estagiários do Darwin gera alguns problemas de ordem prática.
Essa tendência a vivermos amontoados em sociedade gerou a sociolinguística do Saussure e os churrascos com os amigos, porém gerou também os ônibus lotados, esse pequeno universo onde temos que dividir minúsculos centímetros quadrados de nossa existência com outros seres humanos, geralmente suados e/ou gripados.
No meu caso, tento não incomodar muito e me defendo do mundo lendo algum livro ou dormindo. Fico ali me distraído com as safadezas escritas por um João Ubaldo Ribeiro da vida ou me deprimindo com algum escritor russo.
Tudo vai bem até que, a certa altura do trajeto, eis que surge do meio daquele aglomerado de gente suada e ranhenta (a tal da “sociedade”, como falamos anteriormente), um ser que abala todo o equilíbrio do ambiente: A Vendedora de Avon.
Ela é aquela pessoa que, quando você está ali, com a cara enfiada no livro e, com ajuda do detetive Poirot, está finalmente prestes a desvendar quem é o assassino do livro da Agatha Christie, surge do nada e começa a falar alto (muito, muito alto) a respeito do “Renew Platium Sérum Concentrado Anti-Idade” e do “Avon Care Vita Creme Facial Concentrado”, que, “menina do céu, faz milagres, precisa de vê, tem uma vizinha minha que usou e...”.
Quando ela apareceu pela primeira vez, exibindo seus longos cabelos loiros tratados com “Advance Techniques Antiidade Elixir Reparador”, palestrou (pois só ela fala) para sua amiga (com estilhaços desferidos em todos nós, infelizes não-surdos) durante 50 minutos ininterruptos a respeito do “Foot Works Desodorante Spray Refrescante para os Pés”, que era bom e que o marido dela estava usando. Admirei a sua capacidade de abstração da realidade, reduzindo toda a nossa existência miserável à porcaria de um desodorante ainda mais miserável, enquanto permanecia alheia aos olhares de desprezo que a fuzilavam ao redor. Mentira, não admirei nada, minha vontade era dar uma voadora com os dois pés na boca dele, mas não como não sou dado à violência, fiquei apenas observando e me deprimindo mais do que com os escritores russos.
E isso se repetiu durante vários dias. O livrinho da Avon parecia ser mais longo que o Senhor dos Anéis e a cada semana novos lançamentos de cremes e batons anti-alérgicos surgiam para me lembrar o quanto a vida real, assim sem maquiagem, é simplesmente ridícula. O fato é que vivemos em sociedade, mas nós não nos suportamos e não há Glorinha Kaliu (outra insuportável) que faça a gente se relacionar de forma decente e educada.
Mas veja só como nós descemos todos juntos a ribanceira da vida.
Dias atrás um estranho silêncio tomou conta do ônibus, foi numa dessas manhãs chuvosas de Curitiba que deixam as janelas embaçadas, fazendo com que a gente não consiga enxergar o mundo e mundo não nos enxergue. Lá estava a Vendedora do Avon, como que por milagre, quieta num canto, apoiada em seu guarda-chuva comprado na rua. Algo de muito grave deveria ter acontecido, pois nem o livrinho maligno estava à mão. Ela estava agora com os cabelos recém pintados de vermelho e todos nós sabemos que quando uma mulher pinta o cabelo de cor diferente é porque quer mudar algo dentro de si, mas como não consegue, parte para as esquizofrenias estéticas, utilizando a exterioridade para camuflar suas tristezas e inseguranças (os homens fazem o mesmo, mas com cerveja).
Desde então ela não dá mais nenhum piu, segue toda a viagem com os olhos vagos de quem está contando uma história para si mesmo. Desconfio que a amiga dela (que misteriosamente sumiu) passou a vender Natura e ela não suportou a traição.
Fico muito feliz que o silêncio reine no ônibus novamente e que eu possa ler em paz, mas não queria que ela ficasse assim tão triste (do jeito que está, logo, logo ela pinta o cabelo de outra cor). Já que vivemos em sociedade, um dia desses vou lhe perguntar quanto custa o “Foot Works Creme Hidratante Intensivo para Pés com Vitaminas E e Aloe Vera” só pra ver se ela se anima um pouco.
AS RUÍNAS DO SONHO AMERICANO
O volume de páginas impressiona. Em tempos de fast food e twitter, um livro com mais 600 páginas deve assustar um pouco a gente que se acostumou a comer em 5 minutos e a pensar com apenas 140 caracteres. Ler um post no blog, com mais de dois parágrafos então... Impressiona mais ainda um pequeno aviso na capa de Liberdade (lançado recentemente pela Companhia das Letras), a frase do jornal The Guardian diz o seguinte: “O livro do ano, e do século”.
Diante da opinião de um periódico tão respeitado, a opinião de um blogueiro desconhecido é tão relevante quanto um tweet que brota e desaparece na sua time line a cada segundo, mas vamos lá.
Sobre a classificação do “The Guardian”, fica a pergunta que quase todo mundo se faz “Será que é exagero?”. A resposta é: sei lá! não li nem metade do que esses caras lerem, acho que eles devem saber o que estão falando. De minha parte (o que inclui certa dose de ignorância), digo que esse frase serve para definir não “Liberdade”, mas o livro anterior do mesmo autor, “As Correções” (também publicado pela Companhia das Letras). Uma obra não menos que genial e que com toda certeza é uma das melhores coisas que li na minha vida. Contudo aí entra mais uma questão de subjetividade do que propriamente de crítica literária. Se bem que toda crítica é subjetiva, mas eu divago...
“As Correções” fala sobre a precariedade das relações familiares, o que no meu caso foi absolutamente tocante, tanto que até perdi as contas de quantas vezes fiquei chorando com o livro no colo. E por mais que eu estude um pouco de literatura, esse tipo de catarse, para mim, vale mais do que qualquer análise teórica que defina as qualidades de uma obra. “Liberdade”, que também me fez chorar de maneira constrangedora (é, eu sou um fresco mesmo) fala também sobre famílias em ruínas, mas com um foco – palavra odiosa, eu sei - maior num triângulo amoroso. Este imbróglio é composto por Walter, um advogado e ativista ambiental que crê tanto nos valores morais, talvez até de maneira ingênua, que mal percebe quando eles implodem ao seu redor; Patty, ex-jogadora de basquete, estuprada na adolescência, que se casou por se sentir amada, mas que não consegue retribuir o mesmo sentimento, uma vez que se sente atraída dor Richard, roqueiro decadente e melhor amigo de Walter desde os tempos da faculdade, nos anos 70. Todos eles percebem um no outro, ao longo de uns 40 anos de relação, seja no amor, na amizade ou no sexo, a possibilidade ilusória de liberdade, de redenção de uma vida que não deu certo.
A melhor qualidade do livro é capacidade que o escritor Jonathan Franzen tem de criar personagens absurdamente reais. Não há dúvidas de que eles são de carne e osso e caminham por aí. É sério, a construção psicológica do trio Walter, Patty e Richard, e também dos inúmeros personagens secundários (em especial a jovem Connie, cuja aparente unidimensionalidade só torna a personagem ainda mais complexa e misteriosa) é extremamente crível. Até as atitudes idiotas deles são perfeitamente possíveis, pois nós já os conhecemos o suficiente para esperar isso deles. A cada página ficamos decepcionados com suas decisões equivocas, mas logo em seguida sentimos uma ternura enorme por essas pessoas tão cheias de falhas, que fazem tantas coisas erradas, que sofrem e fazem sofrer e que se parecem tanto com a gente mesmo. A única coisa que me incomodou, nesta questão, foi a personagem Jessica, filha do casal, que recebe pouca atenção do narrador e fica meio esquecida durante toda a história.
Franzen traça um painel poderoso, e também preocupante, da sociedade americana na era Bush, tendo como referência trágica as consequências políticas do “11 de setembro”. O consumismo, a corrupção, a frivolidade das relações humanas, a guerra no Iraque e a preservação do meio ambiente são alguns dos temas que servem de cenário para o escritor contar a degradação da família Berglund e, com isso, abrir as veias da hipocrisia e expor a falácia do sonho americano.
Num certo momento, um dos personagens lê o livro “Reparação”, do inglês Ian McEwan, um romance que fala justamente sobre a tentativa praticamente nula de, no presente, tentar corrigir os erros cometidos no passado. Ele no faz pensar que, um vez cientes de nossa condição miserável, o que resta fazer é apenas olhar para trás e tentar entender o que nos levou a ser quem nós somos. Em “Liberdade”, Jonathan Franzen demonstra o quão devastador pode ser este olhar.
14/06/2011
Destroços
Entre pressa e frio, pedestres passam. Atrasados, congelados. Estão, mas logo não estão, pois rapidamente somem no atropelo do trânsito. Os paralelepípedos mal arranjados transformam calçadas em armadilhas grosseiras que mostram suas bocarras cheias de lama, preparadas para morder um salto, torcer um tornozelo ou cuspir barro na calça da mocinha de branco que trabalha no hospital.
O velho envelhece observando esse vai e vem. Sentado em sua cadeira de rodas, parece indiferente, mas na verdade torce para que alguém tome no cu e se estatele no chão. Antigamente, antes de perder quase todos os movimentos da face, ele ria quando algo assim (um tombo ou um palavrão como esse, que ele deixava escapar sem querer) acontecia, mesmo que depois ficasse envergonhado escondendo o rosto como quem cometeu um delito. Agora que ninguém consegue perceber como ele é por dentro - que ele deu um jeito de deixar até os olhos meio apagados - aproveita para se entregar a pensamentos imundos, em linguagem suja e desejos reprimidos.
À noite, enquanto jantam no sofá da sala, ele xinga a filha de biscate, mas ela, obviamente, não percebe e os dois continuam a chupar suas sopas - o tremor das mãos faz chover na manta puída que está em seu colo – em silêncio, pois a TV está ligada e não dá para escutar direito. A neta corre gritando pela casa e derruba o andador e começa a chorar e depois fica quieta e depois torna a correr e a gritar. Da neta ele gosta. Gosta porque sente pena, pois vê que ela engordou demais, foi mimada demais e provavelmente levará uma vida de merda na escola.
O ódio pela filha não começou quando ele caiu no banheiro naquela quarta-feira em que quebrou a bacia e ela não viu as doze ligações perdidas no celular; o ódio pela filha não começou quando ela contratou uma enfermeira não para ajudá-lo, mas visivelmente para aplacar o sentimento de culpa que sentia por sua ausência; o ódio pela filha começou no inverno e talvez ela nem tivesse culpa de nada.
Ele já tinha se acostumado a esquecer o mundo. Via na solidão cinza que iluminava Curitiba e que a deixava tão bonita, uma recompensa pelos anos de trabalho e pela existência apagada que levou. Durante toda a vida ele pensava em quando teria tempo para se dedicar aos livros que fora acumulando nas prateleiras ao longo dos anos. Pensava até em colocar a cabeça no lugar e finalmente começar a escrever, pois sabia que toda a dor que sentia, depois do que aconteceu com a esposa, poderia render um bom romance cheio de ressentimentos.
Pensava que quando tudo finalmente silenciasse e a cidade dormisse, as idéias e memórias surgiriam. Mas não surgiram, pelo menos não em palavras. E seria otimismo demais achar que o seu sistema motor funcionaria perfeitamente aos 70 anos. Já não conseguia segurar uma colher de sopa e muito menos uma caneta. E, temendo a humilhação, nunca se aproximou de um computador.
Esperou tanto para conseguir tempo para escrever e agora o tempo transbordava de forma obscena pela janela e pela programação da tv, tudo em cores exageradas que deixavam seus olhos cada vez mais cansados. Pensou naquela ironia filha da puta, feito a cegueira em um leitor como Borges, e simplesmente decidiu desistir, já que de gênio não tinha nada.
O céu e seu estado de espírito não ornavam como nas analogias literárias, então era bastante comum ele tentar resmungar alguns palavrões enquanto a enfermeira empurrava a cadeira de rodas para que ele tomasse um pouco de sol lá fora. Foi idéia da filha, depois da terceira vez que o pegaram com uma faca de cozinha (era só para cortar um pão, mas ninguém acreditou) ela achou por bem que ele deveria “sair daquele quarto mofado e ver um pouco de gente”.
A preocupação dela o fazia lembrar os pequenos gestos de proteção da esposa e, estranhamente, em vez de gratidão, ele só conseguia sentir desprezo pela aquela espécie de exumação do passado. Sentia um cheiro podre, que provavelmente vinha de suas roupas sempre úmidas, e, amuado em seu silêncio inexpressivo, ele a chamava de vagabunda desgraçada.
A enfermeira, uma negra com peitos enormes que lia Zíbia Gasparetto, ficava sentada ao seu lado durante toda a tarde. Vez ou outra deixava escapar um suspiro e lia para ele algum trecho de autoajuda espiritual que só faziam aumentar o seu tédio.
Hoje ninguém tropeçou na calçada e o velho se sente um pouco frustrado. Tenta lembrar alguma oração que aprendeu na infância, pois quer pedir a Deus que algum ônibus perca o freio ou que um pedestre atravesse a rua distraído com seus foninhos de ouvido e sua música ruim. Ele está calçando uma ridícula pantufa cor-de-rosa em forma de coelho, a única disponível na casa, mas que, segundo a filha, era melhor do que pegar uma pneumonia por aí. Todos que passam por ali, sem torcer o tornozelo nem quebrar o pé, olham para aquela situação ridícula do velho com pantufa infantil e soltam um risinho nervoso.
Distraído com sua vergonha, ele mal percebe que a enfermeira deixou o livro em cima do baquinho e agora fala ao celular, no outro lado do jardim. Ela fala muito alto, muito rápido e ergue as mãos para o céu. Quando ela desliga e vem se aproximando, com expressão assustada e dizendo que houve um acidente com o carro da filha, ele sente a fralda geriátrica inundar-se e começa a gargalhar.
De nerd para nerd
Antigamente ser nerd significava que você sabia de cor a musiquinha de abertura do Cavaleiros do Zodíaco e do Jaspion, almoçava bolacha recheada lendo alguma história em quadrinhos, varava a noite tentando fazer final em algum RPG medieval e entrava em discussões calorosas sobre qual era o melhor Super Nintendo ou Mega Driver? Na escola era tido como “esquisito” ou mesmo “retardado” e seu desempenho com as mulheres era exatamente o oposto de suas notas, sempre muito altas (com exceção de Educação Física, que você fazia questão de ir mal de propósito para não se vender ao Sistema).Antes da coisa toda banalizar (antes da série The Big Bang Theroy fazer sucesso, de nerd deixar de ser fracassado, se tornar cool , não precisar tirar boas notas e ser chamado de geek), muita gente gravava em VHS embolorado uma série chamada Arquivo-X. Foi mais ou menos nessa época que a gente começou essa relação masoquista de ficar sofrendo sem entender o que está acontecendo, de adorar ficar curioso sem encontrar nenhuma resposta, que foi culminar naquela pataquada do Lost.
O filme “Paul” é uma espécie de homenagem para quem foi daquela época, pois só quem vibrava com a musiquinha de abertura (lembra? ) ou que não perdia uma reprise de “Alien - O oitavo passageiro” vai realmente saborear toda a graça desse pequeno grande filme.Ele é tão nerd que começa na “Comic Con”, badalado evento de quadrinhos, cinema e tv que ocorre em San Diego, na Califórnia. Saindo de lá os dois protagonistas resolvem fazer um passeio turístico UFO, visitando, por exemplo, a famosa Área 51. É por lá que acabam encontrando Paul, um ET que gosta de fumar e que consegue ficar invisível, desde que fique pelado e tranque a respiração.
Há inúmeras referências aos filmes do gênero (eu provavelmente nem consegui identificar todas) e ficar enumerando-as aqui só estragaria as surpresas (aliás, caso ainda não tenha visto, não veja o trailer). Só digo que a brincadeira com o clichê de que os alienígenas sempre utilizam sonda anal nos humanos é uma das coisas mais engraçadas que vi esse ano.
Lembro-me que na época em que “Homens de Preto” foi lançado, houve hype tão grande que eu acabei nem achando o filme tudo aquilo. “Paul” chegou sem fazer alarde, nem li nada sobre ele ainda, e acho que ficará na minha lembrança por um bom tempo. Isso se eu não for abduzido e os ET's apagarem a minha memória.
A Partida é um filme bonitinho, mas que tenta parecer lindo, esplendoroso, emocionante... O vencedor do Oscar de filme estrangeiro é feito sob medida para fazer você chorar, mas quando você se perde nessas lágrimas acaba não prestando muita atenção nas falhas que vão se amontoando a cada cena.
A história do sujeito que tem que trocar o violoncelo pela arte de preparar cadáveres para o enterro é bastante interessante (esse ato é tão bonito que não tem como não classificá-lo como arte). Aliás, os bons momentos de sutileza cinematográfica estão justamente aí, na maneira como cada detalhe desse procedimento é filmado. Os tecidos, os gestos e os olhares são de uma sensibilidade realmente tocante, que nos fazem perceber a morte a partir de uma outra perspectiva, menos fúnebre do que estamos acostumados.
Mas o desenvolvimento da história tem sérios problemas, deixando à mostra que o filme carece de equilíbrio. O arco dramático do personagem principal, incluindo as questões mal resolvidas do passado dele são absolutamente previsíveis. Quando os flashbacks vão sendo mostrados já é possível imaginar como será a cena final, a qual se realiza de maneira bastante óbvia (confesso que só errei onde estaria a tal pedra, pois chutei que estaria na caixa).
Outro problema são as metáforas óbvias, como o polvo jogado na água, que não consegue movimentar seus vários tentáculos, feito um artista que não pode mais tocar; a memória ofuscada do rosto do pai; e a pior de todas, os salmões tentando nadar contra a corrente (se a imagem já não fosse óbvia por si só, o personagem ainda explica o que está acontecendo para nós que somos burros e não entendemos a “cena profunda”).
Se o cinema coreano tem como característica misturar inúmeros gêneros cinematográficos num só filme (ver Mother, a busca pela verdade ou O Caçador, já falei sobre eles aqui, dê uma vasculhada aí no blog), no japonês A Partida, essa ideia não funciona direito. É para ser um drama, mas há diversas cenas em que os personagens se comportam de maneira absolutamente caricata, como se estivessem numa comédia pastelão, fazendo caras e bocas patéticas que deixariam o Jack Chan envergonhado. Tudo isso simplesmente não combina com o clima solene que o diretor tenta desenvolver.
Quando ele acerta qual direção quer ir, consegue criar momentos de muita beleza, como a cena em que o protagonista toca seu instrumento na sala e a esposa, acordada no quarto de cima, sorri demostrando um grande afeto pelo marido. Contudo, nessa ânsia de querer emocionar, numa outra cena, ele filma o personagem tocando o violoncelo no meio de um arrozal (!?), com a câmera girando ao seu redor, mostrando uma paisagem linda ao som de uma música mais linda ainda. É de uma plasticidade invejável, pena que não sirva pra nada e seja uma cena absolutamente desnecessária e
UM FILME SOBRE (IN)TOLERÂNCIA
“Homens e Deuses” tem aquela cara de filme feito para o Oscar: aspectos técnicos impecáveis, fotografia linda e roteiro linear. Porém, não estamos diante algo como “O Discurso do Rei”, pois o roteiro, embora em certos momentos seja otimista, não é sobre superação.
A história real dos oito monges que sofreram a ira de fundamentalistas islâmicos na Argélia é contada de maneira delicada, sem pressa e com muito silêncio. O retrato do cotidiano simples do monastério serve para que possamos conhecer os personagens e a sua relação harmoniosa com a comunidade muçulmana que vive ao redor. O respeito às diferentes crenças está tanto no atendimento médico/social que eles prestam à população carente, quanto no empenho dos monges em estudar, além da Bíblia, o Alcorão.
Mas atentados terroristas (com as motivações religiosas absurdas de sempre) começam a ocorrer e os monges se veem diante de um dilema: partir para a França e preservar as suas vidas, o que significa abandonar o povo que precisa tanto deles, ou ficar ao lado dessas pessoas e correr o risco de serem subjugados.
Ver indivíduos de índole tão pacífica serem acossados simplesmente por uma questão de fé nos faz pensar em quão absurda pode ser a interpretação dos textos religiosos.Neste ponto somos apresentados ao que há de mais humano nestes monges que, como qualquer outra pessoa, sentem medo e vergonha, coragem e angústia. Cada um deles reage de uma maneira e o filme empenha-se em mostrar como as decisões foram sendo tomadas.
A cena em que eles jantam ao som de “O lago dos Cisnes” é arrebatadora. De uma beleza que me fez lembrar e muito o poético jantar em “A Festa de Babette”. Quando a câmera passeia pela mesa, dando um close em cada um, já não são apenas personagens que estão ali, são velhos conhecidos cuja bondade e simplicidade nós admiramos. São pessoas com os quais nos importamos a ponto de torcemos para que fiquem bem, pois sabemos que uma terrível tempestade se aproxima.
Pequenas histórias, grandes tragédias*
“Anoto seu nome no meio de um livro relido. Guardo na estante. Aos poucos te esqueço. Já não sei o capítulo. Já não é mais ficção”
“Chegava do trabalho e deixava a TV ligada, mas nem assistia nada . Precisava do barulho, precisava fingir que não era solitário”
“Era hora de mudar o rumo de sua vida. Abriu o mapa buscando novos caminhos: havia apenas labirintos para todos os lados”
“Quando o telefone tocou naquela quarta-feira à tarde ele não imaginou que sua vida iria mudar. Fez bem, pois não mudou mesmo”
“É que te conheço tanto sem te conhecer. É que te quero tanto sem poder te querer. Então só sobra sombras sonhos desses seus sinais”
“Por amor, roubou o coração da moça. Guardou-o com cuidado. Dias depois, o vizinho começou a estranhar o cheiro de carniça”
“Construiu uma ponte. Ligou os dois pontos, mas percebeu que havia ainda mais tristeza do outro lado. Resolveu saltar lá de cima”
"Não gosto de ninguém mexendo nas minhas coisas" disse ela. Tempos depois, chegava do trabaho e chorava: a casa vazia, intocada”
“Pediu o café e folheou o Dostoiévski. Detestava café e não tinha paciência com literatura, mas gostava de parecer inteligente”
Tarsila do Amaral
Há pessoas que simplesmente não conseguem estabelecer um diálogo banal sobre o “tempo que está uma merda”, por exemplo, ou sobre o “reality show que estreou ontem”. São pessoas que não sabem direito como puxar assunto com a irmã da prima do seu amigo que estudou nutrição na mesma sala que sei lá quem, quando está no churras da faculdade e muito menos com o desconhecido-simpático-com-potencial-para-psicopata que puxou conversa no ponto do ônibus. Esse cara que se desespera quando alguém responde algo diferente de “tudo”, quando a pergunta é apenas “Tudo bem?”, é o Sujeito Sem Habilidade Social
O Sujeito Sem Habilidade Social consegue evitar as pessoas como ninguém. Percebe a aproximação de uma conversa indesejada a vários metros de distância e atravessa a rua com antecedência, sem criar grandes constrangimentos para ninguém. Ele só senta no banco individual do ônibus e não assiste muita TV, já para não ter assunto. Ele não responde e-mails (quando é um .pps então ele nem abre) e sente um prazer imenso em não atender o telefone. Para ele, o Nobel da Paz deveria ir para o cara que criou o identificador de chamadas.
Mas quando a proximidade dos chatos* é inevitável, ele utiliza duas ferramentas que o ajudam a estabelecer seu autismo induzido:
Os Foninhos: Sempre anda com os dois pendurados nos ouvidos, mesmo que estejam desligados. Mas se mesmo assim alguém ousar se aproximar, ele aumenta o volume até seus tímpanos quase explodirem, de preferência ao som de um bom heavy metal, mesmo que ele não goste de heavy metal. Em casos mais insanos, quando o chato é insistente e começa a falar mais alto ou a fazer gestos na sua frente, ele acha que o melhor a fazer é fechar os olhos e cantar junto com o vocalista cabeludo de voz fina (mas isso às vezes gera certo constrangimento, dependendo do ambiente).
Livros: Um Sujeito Sem Habilidade Social não sai de casa sem um bom livro - ou um livro ruim também, tanto faz - o que importa é que há sempre um exemplar disponível na mochila para o caso de aparecer um conhecido ou uma fila repentina. Mesmo que a leitura seja um saco e ele já esteja quase dormindo, a qualquer sinal de aproximação ele finge miopia, afunda o nariz no livro a dois dedos das páginas, de preferência tapando todo o campo de visão que o chato possa tentar atravessar, e faz gestos com as sobrancelhas como se aquela leitura fosse uma coisa incrível, como se estivesse descobrindo o segredo do universo (partindo do pressuposto de que este segredo seja algo muitíssimo interessante, pois sei lá, às vezes nem é tudo isso...)
O Sujeito Sem Habilidade Social só gosta de conversar com outro Sujeito Sem Habilidade Social, para que juntos eles possam rir das dificuldades da vida sem habilidade social e das pessoas normais, aquelas ridículas que gostam de filme de entretenimento e sentem-se felizes a maior parte do tempo. Na verdade, mesmo que se sintam tristes e sozinhos, os Sujeitos Sem Habilidade Social gostam dessa falta de habilidade (e me atrevo a dizer que alguns chegam até a fingir em alguns momentos, só para fazer charme), pois desta forma eles se sentem únicos, mesmo que seja assim no plural.
Quando o Sujeito Sem Habilidade Social trai o movimento e tenta interagir com uma pessoa normal (que o coração não gosta disso de viver pela metade) sofre por ter que falar e por não saber ao certo o que diabos falar. Afinal, filmes iranianos e livros do século XIX nem sempre funcionam como arma de sedução, eles podem impressionar intelectualmente e render duas ou três noites de sexo no começo, mas depois enchem o saco, pois todo mundo percebe a fraude.
Então, volta e meia, o Sujeito Sem Habilidade Social se pega dizendo que “estava trocando de canal, e tava passando um programa ridículo...” ou pior, quando se distrai de verdade ele fala até do tempo, que está uma merda, pois está muito frio. Então ele volta para as cobertas, para os braços quentinhos da pessoa normal, e sente-se até um pouco feliz. Mas disfarça.
(*) Os chatos são o equivalente aos trouxas lá dos livros do Harry Potter. São humanos aparentemente normais que não sabem que existe o universo paralelo dos Sujeitos Sem Habilidades Sociais e insistem em puxar conversa sobre assuntos estapafúrdios só para exibirem o quanto são versáteis na interação social. Essa espécie é encontrada em qualquer lugar, com ou sem aglomerações humanas, e tende a gastar o seu tempo falando bem de si mesma e mal das outras pessoas ou apenas reclamando da vida em geral.
Lanchonete
O pai colocou os dois filhos pequenos no velho Corcel II verde e deu a partida. Lá dentro estava muito fedido por causa do aromatizante para carros que infestava tudo, sobrepondo os odores lascivos que contavam os segredos daqueles estofados. O menino mais novo, no banco de trás, olhou para a mãe na janela da cozinha como quem pede socorro, mas trocaram apenas uma ausência de sorrisos.
Foram para uma lanchonete. O homem, que usava óculos de solda cujas proteções laterais foram arrancadas para que ficasse parecendo um Ry-ban, pretendia estabelecer uma maior proximidade paterna, talvez num ímpeto de reparar aquela relação já meio estragada, de gente que não consegue mais conversar sem fazer gestos defensivos ou ensaiar antes de falar.
As mesas eram de metal e estavam um pouco enferrujadas, não era nem possível identificar a marca da cerveja, pois a pintura estava desgastada. Estavam todas rabiscadas, não de caneta, mas de prego ou de chave, e os meninos se divertiram lendo os palavrões ali grafados. Pararam de rir quando ao moço trouxe os x-saladas e as cocas. Eles sujavam os dedos e os cantos da boca com maioneses aguada, enquanto observavam o pai encostado no balcão, dividindo uma cerveja com o dono do estabelecimento.
A mesa de sinuca, a máquina de caça-níquel, os cartazes com mulheres seminuas nas paredes emboloradas e o fato de que mais ninguém ali, além dos meninos, estava comendo alguma coisa, indicavam que a mãe estava certa, aquilo não era uma lanchonete.
Então um senhor de idade entrou. Ele se apoiava em uma muleta que era muito pequena para o seu tamanho e o gesso amarelado na perna direita já estava desmanchado, como se tivesse sido molhado. Aproximou-se do balcão, cumprimentou o pai com certa intimidade e rapidamente foi servido. Não bebia cerveja. Usava um copo pequeno, dentro parecia só água, mas a cara feia que ele fazia após beber acusava que seria alguma coisa parecida com produto de limpeza. Os meninos sabiam disso, pois semanas antes haviam tomado um gole de um recipiente que estava na lavanderia de casa e sentiram como se próprio demônio estivesse dançando dentro de seus estômagos. No começo acharam que iriam morrer, pois pensaram que ficariam com alguma doença grave. Depois tomaram leite, com a certeza de que aquilo cortaria o efeito do veneno, e não tocaram mais no assunto.
O senhor tomou outros três copos daquilo e a conversa foi ficando meio mole, as palavras saltando fáceis. O pai acompanhou o fluxo de doses de pinga e também de cerveja, que era para descer mais leve como ele dizia.
O moço levou a montanha de guardanapos que os irmãos sujaram de maionese e depois passou um pano completamente podre na mesa, mas que tinha um cheiro de lavanda. Eles ficaram sentados sem saber direito o que fazer, como quem não sabe posar para uma foto com pessoas estranhas, pois o pai agora falava alto, de um jeito constrangedor, vomitava palavrões que não estavam riscados nem ali na mesa de lata e nem na porta do banheiro masculino da escola.
Estavam entediados. Se pelo menos tivesse um fliperama com Street Fighter... mas não, só havia aquela máquina de caça-níquel com várias luzes a piscar, parecendo um parque de diversões à noite, cheio de promessas de alegria.
O menino mais velho apanhou um quadradinho de giz azul que estava caído no chão e começou a escrever algo na mesa. Ainda estava na terceira letra quando ouviu o barulho da garrafa sendo quebrada. Os meninos não conseguiram ver direito, pois as fregueses começaram a se amontoar entorno do balcão. Os dois conseguiram enxergar apenas a muleta encostada no canto da parede e alguém caído no chão.
Eles estavam distraídos olhando para baixo, para o tumulto de pernas e quase não perceberam a aproximação do pai que suava muito, empurrava as pessoas e estava com a camisa suja de sangue. Ele falou para eles se levantarem logo e apressarem o passo em direção ao Corcel. Um sujeito se aproximou para falar algo, estava muito nervoso, batendo no vidro, mas o ronco do motor impediu que eles ouvissem o que ele dizia. Ficou para trás, fazendo gestos descontrolados.
O único som durante o percurso até a casa veio do velho rádio mal sintonizado, que misturava uma música gaúcha e o discurso de um pastor evangélico. Os irmãos trocavam olhares absortos pelo espelho retrovisor.
O pai estacionou o carro na calçada. Eles mal desceram e ele já deu a partida, acelerando de forma exagerada e engatando a marcha errada. Sumiu na outra esquina.
Quando eles entraram em casa a mãe estava no sofá, assistindo novela. Ela os recebeu com seu olhar que misturava tão bem a angústia e o afeto que sentia. Não perguntou nada, como sempre. Essa era sua maneira de se proteger das palavras e da precariedade que elas despertavam. O meninos perceberam que aquela mudez não era indiferença, era medo e passaram eles próprios a desenvolver esta habilidade de não preencher o silêncio para que ele não virasse histeria. Então não contaram nada.
Mas o telefone tocou no meio da madrugada. Ainda estavam acordados, observando o brilho das luas e dos planetas falsos colados no teto. Ouviram a mãe atender a ligação e alguns segundos depois colocar o fone no gancho. Ela estava chorando quando entrou no quarto, acendeu a luz e viu os dois fingindo que estavam dormindo.
SOBRE SOLIDÃO E BICICLETAS
No livro “Retrato de um artista quando jovem”, James Joyce retrata os ritos de passagem da infância à adolescência e, posteriormente, à vida adulta de Stephen Dedalus, alterego do autor que também está presente no clássico “Ulisses”. Mas Joyce não se limita apenas a contar a história, pois o amadurecimento do personagem também é demonstrado através da linguagem, ou seja, no começo do livro, quando Dedalus ainda é criança, temos uma linguagem bastante infantil, quase incompreensível, conforme o personagem cresce, a linguagem vai se tornando mais sofisticada, pois ele vai ampliando seu vocabulário e tem mais possibilidades de dizer o seu mundo. O escritor irlandês demonstra de maneira brilhante o quanto pode ser torturante esta limitação da compreensão da dimensão da vida e este doloroso processo de amadurecimento (saber-se angustiado, mas não saber dizê-lo com palavras, apenas com gestos que os adultos acabam não compreendendo). E é sobre isso que fala o filme “Antes que o mundo acabe”.
Daniel, o personagem principal, tem apenas 15 anos e um profundo sentimento de deslocamento: mora numa cidadezinha rural, longe de Porto Alegre; seu pai biológico, que está do outro lado do mundo, resolve entrar em contato; sua namorada acaba de se tornar ex-namorada e, pior, seu melhor amigo parece estar interessado nela.
O tema da solidão adolescente já estava presente num outro filme gaúcho, “Os famosos e os duendes da morte” (já comentado em algum lugar aqui deste blog, lá pra baixo), que retratava a frieza das relações humanas com um fotografia mais acinzentada e diálogos via web. Antes que o mundo acabe, embora discuta praticamente o mesmo assunto, é mais ensolarado.
Os passeios de bicicleta, os gramados, as pontes, os rios tudo remete à uma infância que sentiríamos muita saudade (eu, particularmente, fiquei com vontade de sair de casa e comprar uma bicicleta para tentar recobrar aquela felicidade já meio empoeirada, dos tempos em que saía pedalando por aí meio sem rumo com meus amigos e voltava pra casa só à noite, com o tornozelo sujo de graxa). Percebe-se o carinho com que os personagens são retratados, pois de maneira bastante delicada, a diretora Ana Luiza Azevedo constrói suas personalidades sem pender para maniqueísmos.
Isso tudo fica evidente na cena do primeiro porre do garoto, num excelente trabalho também dos atores coadjuvantes, que poderiam ser mostrados como “malvadinhos”, mas demonstram ser muito mais do que isso. A cena é tão bem feita que nem parece ficção, e quem já entrou num carro velho caindo aos pedaços, cheio de amigos loucos e bebidas ruins sabe bem do que estou falando.
“Antes que o mundo acabe”, junto com “Os famosos e os duendes” e “As melhores coisas do mundo”, demonstram que o cinema brasileiro sabe muito bem como dialogar com os jovens e, de quebra, deixar os adultos com um sorriso nos lábios.
COTIDIANO
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Maria Bethânia interpreta Chico Buarque
Desde que pisou profissionalmente no palco pela primeira vez, em 1965, aos 18 anos, Maria Bethânia se firmou como a mais autoral das cantoras brasileiras e não parou de escrever para si uma trajetória singular na história da MPB. Ao longo de 45 anos de trabalho, conseguiu conciliar de forma magistral atributos aparentemente inconciliáveis: reverência ao passado e ousadia; independência artística e sucesso comercial; sofisticação e apelo popular. Foi a primeira mulher a vender um milhão de discos no país. Nunca se atrelou a movimentos, jamais se submeteu à pressão de gravadoras e sempre navegou na contramão do mercado. Tudo isso lhe garantiu uma carreira imaculada, que atravessa as décadas angariando a admiração fiel do público e da critica.
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Mais do que cantora, Maria Bethânia sempre gostou de se definir como intérprete. E com justa razão. Ela deu origem a uma linhagem de cantoras que, por força de sua interpretação, tornam-se quase co-autoras das canções que passam por suas vozes. E pelo timbre grave e dramático de Bethânia já passou, e continua a passar, o melhor da música brasileira.
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Entretanto, de todos os compositores que interpretou, nenhum ganhou mais sentido na sua voz do que Chico Buarque. Sem falsa modéstia, e com aval do próprio compositor, Bethânia costuma se dizer sua melhor intérprete. E não é para menos: em quase cinco décadas de carreira, já interpretou mais de cinqüenta de suas canções.
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Esta primeira série de shows – sempre apresentados em dias consecutivos – começa em Curitiba (Teatro Guaíra, de 18 a 20 de novembro) e depois segue para São Paulo (Via Funchal, de 21 a 23 de novembro), Ribeirão Preto (Teatro Pedro II, de 6 a 8 de dezembro), Goiânia (Teatro Rio Vermelho, de 16 a 18 de dezembro) e Recife (Teatro Guararapes, de 18 a 20 de janeiro).
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Desde que pisou profissionalmente no palco pela primeira vez, em 1965, aos 18 anos, Maria Bethânia se firmou como a mais autoral das cantoras brasileiras e não parou de escrever para si uma trajetória singular na história da MPB. Ao longo de 45 anos de trabalho, conseguiu conciliar de forma magistral atributos aparentemente inconciliáveis: reverência ao passado e ousadia; independência artística e sucesso comercial; sofisticação e apelo popular. Foi a primeira mulher a vender um milhão de discos no país. Nunca se atrelou a movimentos, jamais se submeteu à pressão de gravadoras e sempre navegou na contramão do mercado. Tudo isso lhe garantiu uma carreira imaculada, que atravessa as décadas angariando a admiração fiel do público e da critica.
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Mais do que cantora, Maria Bethânia sempre gostou de se definir como intérprete. E com justa razão. Ela deu origem a uma linhagem de cantoras que, por força de sua interpretação, tornam-se quase co-autoras das canções que passam por suas vozes. E pelo timbre grave e dramático de Bethânia já passou, e continua a passar, o melhor da música brasileira.
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Entretanto, de todos os compositores que interpretou, nenhum ganhou mais sentido na sua voz do que Chico Buarque. Sem falsa modéstia, e com aval do próprio compositor, Bethânia costuma se dizer sua melhor intérprete. E não é para menos: em quase cinco décadas de carreira, já interpretou mais de cinqüenta de suas canções.
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Esta primeira série de shows – sempre apresentados em dias consecutivos – começa em Curitiba (Teatro Guaíra, de 18 a 20 de novembro) e depois segue para São Paulo (Via Funchal, de 21 a 23 de novembro), Ribeirão Preto (Teatro Pedro II, de 6 a 8 de dezembro), Goiânia (Teatro Rio Vermelho, de 16 a 18 de dezembro) e Recife (Teatro Guararapes, de 18 a 20 de janeiro).
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